27 – CORAÇÃO BENEVOLENTE

A marcha da benevolência não deixa rastro.
A fala da benevolência não deixa margem para críticas.
A conta da benevolência não necessita de cálculos.
O fecho da benevolência não precisa de ferrolho e não se consegue abrir.
A benevolência ata sem precisar de cordas e não se consegue desatar.

Por isso, o sábio é constante em sua benevolência,
salva as pessoas e não desiste de ninguém.
Sempre benevolente resgata as coisas
e não descarta nada.
A isso se diz herdar a luz.

Por isso, aquele que é benevolente é mestre daquele que não é.
E aquele que não é benevolente é desígnio para aquele que é.
Não valorizar seu mestre ou não amar o seu desígnio,
mesmo com muito conhecimento,
é estar em grande desorientação.
A isso tudo se chama a essência do mistério.

Coração Benevolente

A natureza é o grande mestre para os chineses, deve-se contemplá-la e aprender com ela. A benevolência da natureza opera no invisível, a sua marcha não tem rota definida ou rastros a se seguir, simplesmente ela percorre a rota indefinida sem deixar rastro. Nas estações da primavera e verão, a sua produção não precisa ser contabilizada. No outono e inverno a sua amarração e fechamento não tem como querer abrir ou desatar.

Além de contemplar a natureza sempre aprendi muito sobre o coração benevolente ensinando as artes corporais chinesas. Quando acompanhei os mestres e médicos chineses, traduzindo as suas aulas do chinês para o português na década de 70, sentia a força do fluxo do conhecimento milenar querendo se expressar e me sentia um canal para que isso acontecesse.

Percebi que para este fluxo se realizar, teria que ter de um lado o representante do conhecimento milenar, ou seja, o mestre que tem ligação com o fio de ouro (conhecimento), e de outro lado o principiante com a sua mente aberta para receber o novo. Esta percepção me fez entender o significado do que os chineses diziam que um mestre só era mestre quando tivesse ao menos um discípulo, e que sem discípulo não se é mestre. Porque o mestre é simplesmente um canal que sintoniza a sutil faixa de conhecimentos milenares quando encontra um receptor (discípulo) ligado a isso. Aí o conhecimento flui por esse elo estabelecido.

Cada um tem a sua função: o conhecimento milenar existe acumulado no plano sutil como uma “nuvem” invisível; o canal (mestre) deve estar com o coração vazio para permitir uma comunicação sem interferências, e o receptor deve estar ligado naquilo que vai ser transmitido. Eis a condição ideal para o conhecimento começar a fluir. É claro que deve existir o respeito para com o que é transmitido e a força do amor e bondade para poder transmitir.

Quando tratamos das artes corporais chinesas, o transmitir e o receber é natural como a inter-relação harmoniosa entre o yin yang. Ao serenar o coração podemos nos centrar e a partir desse centro contemplar e governar tudo ao redor para alcançar a harmonia.

Quando realizamos as práticas com o coração benevolente, tudo é cuidado e visto sem  abandonar e nem esquecer nenhuma parte. Um dos princípios das artes corporais diz: “Quando uma parte do corpo se move, todo corpo se move. Quando uma parte está parada todo corpo está parado”. As partes do corpo que estão bem ensinam e ajudam as partes que não estão, sendo que estes são os desígnios dos primeiros. “Não valorizar seu mestre ou não amar o seu desígnio” mostra uma grande desorientação do Coração, como diz o Daodejing.

Em todas as artes corporais chinesas deve-se valorizar as possibilidades do praticante ao invés das impossibilidades, as potencialidades saudáveis ao invés das fraquezas e debilidades. Ao se valorizá-las permite-se que elas, as possibilidades e as potencialidades saudáveis, em sua atitude benevolente inata, ensinem e sirvam de modelo para as partes que estão necessitadas e fracas.

Podemos citar um exemplo: na prática corporal do Liangong em 18 Terapias (para fortalecimento do corpo físico), as partes do corpo que estão bem sabem que não adianta estarem bem sozinhas; é preciso ajudar as partes que não estão bem para se atingir um estado de harmonia. Por exemplo: no exercício para o joelho junta-se os dois joelhos encostando-os, e os dois, como se fossem um, fazem o movimento onde o joelho que está bom serve de modelo e ensina o que não está bem, e o joelho fraco recebe o estímulo e o exemplo do outro. Ao cabo do exercício sentiremos melhora no joelho que não estava bem e também o fortalecimento do joelho que o ajudou! Assim acontece com todas as partes do corpo, pois cada parte sabe que não adianta estar bem sozinha, e que para se atingir um estado de harmonia é preciso que as outras também estejam bem.

O que acontece no âmbito interno se reflete no externo: aprendemos e ensinamos, transmitimos e recebemos. O amor é a força para ensinar e transmitir, e o respeito e o reconhecimento são os sentimentos para ser o receptor. Quando mais centrados estamos, percebemos que o aprender e ensinar (transmitir e receber) é um só, simultâneo, pois quando ensinamos, aprendemos, e quando aprendemos também estamos ensinando.

Isto é maravilhoso!

26 – A SUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER

DAO DE JING
Capítulo 26

O pesado é a raiz do leve
O quieto é o senhor do inquieto

Portanto o sábio em sua marcha diária,
não perde de vista a sua bagagem.
Ele permanece leve e desapegado,
mesmo que haja coisas deslumbrantes para se ver.

Como pode o dono de muitos recursos,
agir levianamente ante ao mundo?
Ser leviano perde a raiz.
Ficar agitado perde o governo.

A Sustentável Leveza do Ser

O pesado é a raiz do leve

O quieto é o senhor do inquieto.

Podemos observar estas palavras na natureza: a terra sólida e estável permite a leveza dos movimentos das plantas, das águas e dos seres que nela se enraízam e se elevam para o céu.

Fazendo uma analogia com a natureza humana, o corpo físico é “pesado” e o espírito é “leve”. Às vezes, na busca de espiritualidade, consideramos o corpo físico um fardo que nos atrapalha e tendemos a ignorá-lo. No entanto, isto é um equivoco, pois o corpo abriga o espírito, por isso durante a nossa jornada, na terra, não podemos perder o nosso corpo de vista. Quando cuidamos devidamente do nosso corpo, o espírito tem onde se enraizar. Sem o corpo como substrato sólido e estável, o espírito não tem como se enraizar, fica inquieto, agitado e vai embora, e na ausência dele o corpo fica muito mais pesado.

O monge indiano Damo também chamado de Bodhidarma, introdutor do budismo Chan (Zen), na China, entendia que um corpo físico saudável é condição para o desenvolvimento espiritual. Em 526 d.C., Bodhidarma chegou ao templo Shaolin, na província de Henan, parte central da China, onde já se praticava o Budismo. Lá, ele viu que os monges buscavam a iluminação espiritual dedicando muito tempo para a meditação. Os monges estavam debilitados e sem vitalidade, pois acreditavam que, como era o espírito que se iluminaria, não era necessário o trabalho com o corpo. Então, diz a lenda, Bodhidarma ficou meditando durante nove anos para desenvolver o Yi Jin Jing (Prática de Transformação dos Músculos e Tendões), que fortalece o corpo físico e produz a vitalidade necessária para a meditação. Apesar de muito antiga, esta prática permanece até hoje como umas das mais importantes para a transformação da qualidade dos músculos e tendões. O Yi Jin Jing inspirou técnicas corporais modernas de fortalecimento do corpo como o Liangong em 18 Terapias, do Dr. Zhuang Yuan Ming, muito difundida no ocidente.

Também na medicina tradicional chinesa o “pesado” e o “leve” interagem e se complementam como o yin/yang.  O “pesado” se dissolve através de um movimento yang ascendente. O leve se condensa através de um movimento yin descendente.

No nosso corpo, de forma geral, as funções dos órgãos localizados abaixo do diafragma (Baço, Rim e Fígado) são os responsáveis por produzir e transformar a essência (inata e adquirida) e a fazer chegar às regiões superiores em um movimento ascendente. Na região superior, os órgãos acima do diafragma (Coração, Pericárdio e Pulmão) são os responsáveis de receber essa essência pura que ascendeu para condensá-la com o ar celeste respirado e difundi-la para todos os órgãos e vísceras abaixo deles, em um movimento descendente. O movimento de “dissolver e ascender” e “condensar e descender” parece ser simples, mas, não é devido a outros tipos de energias que vem do externo e pode afetar esta movimentação. Isto depende não só da qualidade do que vem do externo, mas também da nossa capacidade em assimilá-los e transformá-los em energias sutis que possam alimentar e cultivar o espírito. Para isso devemos ficar desapegados e não nos projetar nos acontecimentos externos. Dessa forma, o mundo externo não perde a sua abundância nem a riqueza de impressões e sons, porém deixa de nos dominar e, então, passamos a poder contemplá-la.

Os sábios como Laozi, mestres enraizados nos seus conhecimentos, são pessoas simples e naturais, e por isso, agem com leveza; a responsabilidade não lhes pesa.

25 – O SER HUMANO É GRANDE

DAO DE JING
Capítulo 25

Há algo no Nada indistinto e íntegro,

anterior ao nascimento do Céu e Terra.

Silencioso e invisível, independente e imutável.

Move em círculos sem cessar.

Pode ser considerado a Mãe da miríade de coisas. 

Não sei o seu nome .

Ao ter de dar um nome, chamo-o Dao.

Ao ter de descrevê-lo digo grandioso.

 

Grandioso significa expandir.

Expandir significa ir longe.

Ir longe significa regressar.

Por isso o Dao é grande,

o Céu é grande,

a Terra é grande,

o Ser Humano é grande.

No universo existem quatro grandes,

e o Ser Humano é um deles.

O Ser Humano segue as leis da Terra,

a Terra segue as leis do Céu,

o Céu segue o Dao,

o Dao segue a si mesmo, o natural.

O Ser Humano é Grande

Existe algo, diz Laozi neste capítulo, no qual estamos imersos que, imperceptível, interpenetra a densidade de nosso corpo e envolve, silenciosamente, a tudo que existe no universo. Este algo é como um Vazio que parece não ter nada, mas contêm todos os seres que lutam para vir à existência. Este Nada que gera e transforma não foi gerado e nem se transforma, é o absoluto de onde surge o Céu, a Terra e o Ser Humano. Seu movimento expande em círculos, numa grande espiral ascendente que vai longe e, ao ir longe, encontra a sua origem. Este algo é chamado de Dao (Caminho) e ele é grandioso.

O Ser Humano, revela Laozi, é um dos grandes colocado em paralelo com o Céu, a Terra e o Dao. Significa que o ser humano possui todos os elementos que constituem o Céu, a Terra e o Dao.

Porém, as pessoas nem desconfiam que possuam tal grandeza, de tão entorpecidos e absortos na mecanicidade e nas suas limitações. Só se torna um Ser Humano em toda acepção deste termo aqueles que procuram, com constância, desenvolver as suas potencialidades e sair da mecanicidade.

Então, como na finitude de nosso corpo físico podemos tomar contato com algo grandioso como o Dao? Este capítulo do Daodejing nos dá pistas.

Antes de tudo devemos nos silenciar. No silêncio, temos o sentimento da existência do Dao. Quando me movimento, faço-o à semelhança do movimento do Dao, circularmente com naturalidade e constância, assim, se abre em mim um espaço onde um sentimento grandioso me faz retornar ao meu centro.

No parágrafo final, Laozi diz que existem degraus a ser escalado para se atingir o Dao, não dá para pular etapas. Com humildade deve-se primeiro seguir as leis da terra, ao qual estamos sujeitos. Por termos uma forma, um corpo físico, estamos sujeitos às forças de gravidade e atração, à limitação dos movimentos, à dependência da nutrição pelos alimentos e pelo ar, além de necessidades emocionais e mentais.

Carl Gustav Jung, psicanalista suíço, em seu comentário introdutório no livro O Segredo da Flor de Ouro[1], diz a respeito da dificuldade de se compreender o saber que fala sobre a alma e o espírito:

“Acaso não pressentimos que tal colocação anímica, que permite olhar fundo e para dentro, desprendendo do mundo, só é possível porque estes homens satisfizeram de tal modo as exigências instintivas de sua natureza, que pouco ou nada mais os impede de ver a essência invisível do mundo. E acaso a condição de possibilidade da libertação destes apetites, dessas ambições e paixões que nos detêm no visível, não reside justamente na satisfação plena de sentido das exigências instintivas, em lugar de uma repressão prematura determinada pela angústia?

E não se liberta o olhar para o espiritual quando a lei da terra tiver sido obedecida?”. 

(O Segredo da Flor de Ouro, p.25)

Quando seguimos as leis da Terra, transcendemos e podemos junto com ela seguir as leis do Céu que são as quatro estações e a alternância da luz e da escuridão. O Céu segue o Dao e junto com o Céu também seguimos o Dao. E o Dao nada mais é do que ser natural.

É um encadeamento. Se a pessoa não segue as leis da Terra, não consegue seguir as leis do Céu e nem do Dao.

Nos tratados chineses de alquimia interna e conservação da vida, fala-se sobre o duplo cultivo Xing/ Ming.

O Ming é a nossa existência na Terra, o estar no mundo, esse cultivo é entendido em uma dimensão horizontal. O Xing é o cultivo do Ser, a consciência que permite a união com o Céu, numa dimensão vertical.

Da miríade de seres, o Ser Humano é o que tem a possibilidade ou está pronto para a transcendência.

 

Por isso o Dao é grande,

o Céu é grande,

a Terra é grande,

o Ser Humano é grande.

No Universo existem quatro grandes,

e o Ser Humano é um deles.

[1] Jung, C.G.; Wilhelm, Richard. O Segredo da Flor de Ouro, Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 1984, 2° edição.

24 – COM O CORAÇÃO NOS PÉS


DAO DE JING
Capítulo 24

Aquele que se sustenta nas pontas dos pés não fica estável

Aquele que avança a passos largos não vai longe

Aquele que se exibe não brilha

Aquele que é cheio de si não é respeitado

Aquele que se vangloria não tem o mérito

Aquele que é arrogante não evolui

 

No Dao estas coisas

são supérfluas como sobras de comida,

que as pessoas desprezam.

Por isso os que seguem o Dao

Não agem assim.

 

Com o Coração nos Pés

 

Ficar na “ponta do pé” é uma metáfora para descrever aquelas pessoas que não colocam o “pé no chão”. A primeira dá a ideia de suspensão e a segunda à ideia de enraizamento.

Na fisiologia da medicina tradicional chinesa os pés são integrados a todo corpo através do fluxo do sopro vital que corre por caminhos chamados de Meridianos. Correm pelos pés três meridianos yang que pertencem às Vísceras do Estômago, Bexiga e Vesícula. Estes se  iniciam na face, correm ao longo do corpo e terminam no 2°, 4° e 5° artelhos dos pés respectivamente.  Nos pés o fluxo continua, pois os meridianos yang se conectam com os três meridianos yin pertencentes ao Órgão do Baço (medial do artelho grande), Rim (sola do pé) e Fígado (lateral do artelho grande) que correm pelo aspecto medial dos membros inferiores e penetram no tórax para se unir com os respectivos campos energéticos dos Órgãos aos quais pertencem.

Os Órgãos e Vísceras na MTC são campos energéticos que englobam não só a morfologia dos órgão e vísceras mas também abrangem emoções, impressões, movimentos etc..

Os campos dos Órgãos e Vísceras ligados aos pés necessitam da estabilidade e potência da Terra para realizar bem a sua função. Esta estabilidade e potência da Terra é transmitida pelos meridianos dos pés através de seus acupontos. Estando na “ponta dos pés”, não há contato dos pés com a potência da Terra e isto prejudica não só o equilíbrio do corpo físico como também a função dos campos energéticos dos Órgãos e Vísceras correspondentes.

Na natureza, a ascensão da potência da Terra depende do descenso da emanação celeste, se o Céu não desce a Terra não sobe. Acontece da mesma forma no interior de nosso corpo: a emanação celeste deve descender através do campo do Coração para se relacionar com o campo dos Rins e dai conectar-se com os pés enraizando-os. Para que isto aconteça o Coração deve estar vazio e sereno, pois um Coração abarrotado e ansioso, imerso nas coisas mundanas, verte a sua energia para o exterior e não consegue se voltar para o interior.

A metáfora “a passos largos não se avança”, está relacionado com o Coração abarrotado e ansioso que faz com que os passos sejam mais largos do que as pernas podem dar.

É como uma carruagem cujo coche é puxado por um cavalo que corre disparado, galopando sem o devido controle do cocheiro. O cavalo representa as emoções. O cocheiro ausente representa o Coração (mente) que embriagado com as coisas mundanas não consegue controlar o cavalo. O coche é o nosso corpo físico que sofre as consequências e pode se desmantelar.

Os excessos nas atitudes e ações humanas são como as sobras de comida desprezadas e desperdiçadas, que resultam em  desvios no Caminho (Dao).

 

 

23 – Comentário-SER NATURAL

Comentário de Violete Lee (minha irmã) – Capítulo 23

Ser natural é ser simples não complexo ou complicado, intrigante, manhoso, astuto…

No Capitulo 23 diz:  “Os que perderam do Dao e da Virtude, agem sem consonância com o Dao e a Virtude”. Isso infere que sempre tivemos o Dao e a Virtude (só pode perder o que sempre tivemos). “Os que se perderam o Dao e a Virtude, enaltecem a perda”.  Isso sugere que sem o Dao e a Virtude vivemos na consequência da perda e dentro do mundo do dano.

Capitulo 23 diz: “Quando a fé não é total, não tem fé”.

A fé é natural e simples. Quando era criança e jovem, minha fé e confiança em Deus e em papai e mamãe, era total e essa fé me trouxe paz e alegria, gostava de todo mundo.  Não me preocupava com nada.  Quando adulta, fiquei mais complexa, não confiava facilmente e tinha dúvidas; que mostra a perda do Caminho e das Virtudes.  Perdi bastante paz e alegria e não gostava de muita gente e me preocupava com muitas coisas.

Uns seis meses atrás me disseram que tenho câncer de ovário.  Fizeram operação de histerectomia, e tive que fazer quimioterapias que terminou em Fevereiro.  Esse processo foi o que eu precisava para voltar a ser simples e ter fé.  Fé na minha oncologista – ela tem a sabedoria sobre esse tipo de câncer e tem a organização do hospital, tratamentos etc. Fé em Deus – a minha vida vem de Deus meu Pai e Criador.  Deus é infinito e sendo Criador, não há nada que não pode fazer.  Deus é Pai.  Ele tem o meu interesse na mente. Quantas vezes, o que achei bom e certo não foram bons nem certos – obras do orgulho, da vaidade de uma criatura que é finita e limitada, dependendo de si em vez de Deus que é infinito e sem limites..  O câncer me trouxe de volta para Deus – com Deus na minha vida, achei a paz e alegria de quando era criança simples e natural.

Lembrando quando era criança e jovem, voltei para o que sempre tinha em mim – um ser natural e simples, com fé total, sem condições – em consonância e glorificação em Deus.

Pós-escrito – Últimos testes mostraram que tudo voltou ao normal. Vou acompanhando com testes.  Mas estou em paz com a vontade de Deus.

vio

23 – SER NATURAL

 

DAO DE JING
Capítulo 23

Falar pouco é natural

Na natureza um vendaval não sopra a manhã toda

E uma tempestade não dura um dia inteiro.

A quem se deve isso? Ao Céu e Terra.

Se as coisas no Céu e Terra, em seu nível superior, não persiste

Como pode as ações do humano persistir?

Os que seguem o Dao,

agem em consonância com o Dao

Os que seguem a Virtude,

agem com virtude.

Os que se perderam do Dao e da Virtude,

agem sem consonância com o Dao e a Virtude.

Os que seguem no Dao enaltecem o Dao

Os que seguem a Virtude enaltecem a Virtude

Os que se perderam enaltecem a perda.

Quando a fé não é total, não há fé.

Ser Natural

Falar é uma forma de expressar o que está no Coração. Na medicina tradicional chinesa o Órgão Coração pertence ao elemento Fogo, suas principais funções são: abriga a consciência, controla a mente e os pensamentos, e se abre na língua. Estas funções do Coração mostram a sua conexão com a fala.

Uma pessoa com o Coração cheio e com excesso de fogo tende a falar muito. Papagueia falando do que não sente, do que desconhece. Isso não é natural, é um desequilíbrio. O natural é um Coração sereno que se manifesta falando daquilo na qual aplicou o seu Coração e que é essencial naquele momento.

Falar muito desgasta o sopro vital (qi) e a vitalidade, dispersa a atenção e nos desvia do Caminho (Dao). Deixando de falar o essencial, deixamos de receber a resposta reveladora, deixamos de despertar a consciência e deixamos de iniciar uma ação transformadora.

Falar e fazer o essencial é muito simples, pois o essencial é natural e espontâneo. O que não é essencial não persiste. Seguir o Caminho com Virtude é simples e essencial. Perder o Caminho e a Virtude é ser arrastado pelo não essencial.

O essencial nos dá a fé e a confiança total. No não essencial não podemos confiar. Quando fazemos o essencial estamos protegidos pelo Dao. Os acidentes acontecem no não essencial.

As manifestações de um Coração puro enaltecem o Caminho e a Virtude. As manifestações de um Coração perdido enaltecem a perda.

Os que seguem no Dao enaltecem o Dao

Os que seguem a Virtude enaltecem a Virtude

Os que se perderam enaltecem a perda.

22 – ABRAÇAR A DUALIDADE

DAO DE JING
Capítulo 22

No modesto está a plenitude.
No torto está o reto.
No esvaziar há o preencher.
O usado contém o novo.
O pouco concentra, e o muito desperdiça.

Por isso, o sábio abraça a unidade, e é modelo para o mundo.
Não se exibe por isso brilha.
Não se impõe por isso fica em evidência.
Não faz alarde por isso tem mérito.
Não se vangloria por isso governa.
Não disputa por isso nada abaixo do céu disputa com ele.

O dito antigo: no modesto está a plenitude.
São por acaso palavras vazias?
Na plenitude, retorna-se ao Dao (Caminho).

Abraçar a Dualidade

Dao é a unidade suprema, significa Caminho ou Via, o Caminho para cada ser é único, e cada ser é único também. Mas o Caminho só existe ao se caminhar por ela, sem andar o Caminho não existe. Porém o movimento gera dualidade, polos opostos, mas estes ao invés de se repelirem, se relacionam e se complementam. É como se, depois de terem sido separados, buscam reconstituir a unidade perdida.
Esta relação entre opostos, para o pensamento chinês, é uma lei imutável que ocorre em todos os níveis na natureza. Os chineses ilustram este conhecimento através do símbolo do Taiji (polo extremo) que une a polaridade Yin/Yang em um círculo que representa a unidade. Podemos notar que o Yin tem uma marca do Yang, um vazio que deve ser preenchido pelo Yang; e o Yang por sua vez tem a marca deixada pelo Yin um espaço a ser preenchido pelo Yin.
Neste capítulo Laozi enfatiza que cada coisa, contem em si, o seu oposto, e que busca nele a unidade perdida.
Os seres buscam a unidade no seu oposto, pois ao alcançar a unidade, mesmo que breve, os conflitos esvanecem e tem-se uma profunda paz.
Por exemplo, no ser humano, a mulher, de natureza Yin, tem dentro de si os vestígios do Yang, e o homem de natureza Yang tem dentro de si os vestígios do Yin. Numa relação entre duas pessoas existe o desejo de um encontrar no outro, a parte que lhe falta e a sensação de paz que traz essa união. Mas a busca de união através do outro, e não de si mesmo, é ilusória como adverte o I Jing no Hexagrama 61:

Ele encontra um companheiro.
Às vezes toca tambor, às vezes para.
Às vezes chora, ás vezes canta.
Aqui a fonte de energia de um homem não reside nele próprio, mas em seu relacionamento com outras pessoas. Por maior que seja sua intimidade com  essas pessoas, se seu centro de equilíbrio interior depende delas, ele será arrastado, sem que o possa evitar, ora à alegria, ora à tristeza.  Às vezes estará no mais alto céu, depois mergulhará num desespero mortal; esse é o destino daqueles que dependem de uma concordância com as pessoas a quem amam.
(Wilhelm Richard. I Ching. São Paulo: Pensamento, 1998. “Verdade Interior”, Hexagrama 6, terceira linha p. 186)

O segredo da paz nas relações externas é o de realizar a própria unidade interna. Como diz Laozi neste capítulo “O sábio abraça a unidade, e é modelo para o mundo”.
Ser modelo para o mundo é orientar pela mera presença, pela modéstia e a plenitude que contem. Uma pessoa modesta não se exibe, não se impõe, não faz alarde, não se vangloria, não disputa; realiza as coisas de forma plena e é admirado.